"[...]mas faz-nos esboçar uma realidade supra-sensível compatível com o uso experimental da nossa razão. Sem uma tal precaução, não saberíamos fazer o mínimo uso de semelhante conceito e deliraríamos ao invés de pensarmos.[...]"

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Mar 09

 

Segunda Parte
 
Considerámos até agora o caso em que um actual se rodeia de outras virtualidades cada vez mais extensas, cada vez mais longínquas e diversas: uma partícula cria efémeros, uma percepção evoca recordações. Mas o movimento inverso também se impõe: quando os círculos se estreitam, e que o virtual se aproxima do actual para se distinguir dele cada vez menos. Atingimos um circuito interior que não reúne mais que o objecto actual e a sua imagem virtual: uma partícula actual tem o seu duplo virtual, que quase não se descola dela; a percepção actual tem a sua própria recordação como uma espécie de duplo imediato, consecutivo ou até simultâneo. Pois, como Bergson o mostrou, a recordação não é uma imagem actual que se formaria após o objecto percepcionado, mas a imagem virtual que coexiste com a percepção actual do objecto. A recordação é a imagem virtual contemporânea do objecto actual, o seu duplo, a sua “imagem em espelho”[4]. Assim, existe coalescência e cisão, ou, melhor, oscilação, perpétuo contágio entre o objecto actual e a sua imagem virtual: a imagem virtual não pára de devir actual, como num espelho que se apodera da personagem, a engole, e que, por sua vez, não lhe deixa mais que uma virtualidade, ao estilo d'A Dama de Xangai. A imagem virtual absorve toda a actualidade da personagem, ao mesmo tempo que a personagem actual não passa de uma virtualidade. Este contágio perpétuo do virtual e do actual define um cristal. É no plano de imanência que surgem os cristais. O actual e o virtual coexistem, e entram num estreito circuito que nos reenvia constantemente de um para o outro. Já não é uma singularização, mas uma individuação como processo, o actual e o seu virtual. Já não é uma actualização mas uma cristalização. A pura virtualidade não tem já de se actualizar dado que é estritamente correlativa do actual com o qual forma o mais pequeno circuito. Já não há mais distincionabilidade do actual e do virtual, mas indiscernabilidade entre os dois termos que se contagiam. 
 
Objecto actual e imagem virtual, objecto que deveio virtual e imagem que deveio actual, estas são as figuras que aparecem já na óptica elementar[5]. Mas, em todos os casos, a distinção do virtual e do actual corresponde à mais fundamental cisão do Tempo, quando este avança diferenciando-se, seguindo duas grandes vias: fazer passar o presente e conservar o passado. O presente é um dado variável medido por um tempo contínuo, isto é, por um movimento suposto numa única direcção: o presente passa na medida em que esse tempo se esgota. É o presente que passa que define o actual. Mas o virtual aparece, por sua vez, num tempo mais pequeno que aquele que mede o mínimo de movimento numa única direcção. É por isso que o virtual é “efémero”. Mas é também no virtual que o passado se conserva, porque este efémero não deixa de lá estar no “mais pequeno” seguinte, que reenvia a uma mudança de direcção. O tempo mais pequeno que o mínimo de tempo contínuo pensável numa direcção é também o tempo mais longo, mais longo que o máximo de tempo contínuo pensável em todas as direcções. O presente passa (à sua escala), assim como o efémero conserva e conserva-se (à escala deste). Os virtuais comunicam imediatamente por cima do actual que os separa. Os dois aspectos do tempo, a imagem actual do presente que passa e a imagem virtual do passado que se conserva, distinguem-se na actualização, tendo um limite indeterminável, mas contagiam-se na cristalização, até devirem indiscerníveis, cada um ocupando o papel do outro.
 
A relação do actual e do virtual constitui sempre um circuito, mas de duas maneiras: tanto o actual reenvia para virtuais como para outras coisas em vastos circuitos, onde o virtual se actualiza, como o actual reenvia ao virtual como seu próprio virtual, nos mais pequenos circuitos onde o virtual cristaliza com o actual. O plano de imanência contêm simultaneamente a actualização como relação do virtual com outros termos, e até o actual como termo com o qual o virtual se contagia. Em todos os casos, a relação do actual e do virtual não é aquela que se estabelece entre dois actuais. Os actuais implicam indivíduos já constituídos, e determinações através de pontos vulgares; enquanto a relação do actual e do virtual forma uma individuação em acto ou uma singularização através de pontos marcantes a determinar em cada caso.
 
 
[4] Bergson, L'Énergie spirituelle, “le souvenir du présent...”, pp. 917-920. Bergson insiste nos dois movimentos, em direcção a círculos cada vez mais vastos, em direcção a um círculo cada vez mais estreito.
 
[5] A partir do objecto actual e da imagem virtual, a óptica elementar mostra em que caso o objecto devém virtual e a imagem actual, e depois, como o objecto e a imagem devêm ambos actuais ou ambos virtuais.

 

escrito por José Carlos Cardoso às 22:05

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