"[...]mas faz-nos esboçar uma realidade supra-sensível compatível com o uso experimental da nossa razão. Sem uma tal precaução, não saberíamos fazer o mínimo uso de semelhante conceito e deliraríamos ao invés de pensarmos.[...]"

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Mar 09
Primeira Parte
 
A filosofia é a teoria das multiplicidades. Toda a multiplicidade implica elementos actuais e elementos virtuais. Não existe objecto puramente actual. Todo o actual se rodeia de um nevoeiro de imagens virtuais. Este nevoeiro investe circuitos coexistentes mais ou menos extensos, sobre os quais as imagens virtuais se distribuem e planam. É assim que uma partícula actual emite e absorve virtuais mais ou menos próximos, de diferentes ordens. Eles são chamados virtuais porquanto a sua emissão e absorção, a sua criação e destruição se fazem num tempo mais pequeno que o mínimo de tempo contínuo pensável, e que esta brevidade os mantém desde logo sob um princípio de incerteza ou de indeterminação. Todo o actual se rodeia de círculos de virtualidade sempre renovados, em que cada um emite um outro, e todos rodeiam e reagem sobre o actual (“ao centro da bruma do virtual está ainda um virtual de ordem mais elevada... cada partícula virtual rodeia-se do seu cosmos virtual e cada uma, por sua vez, faz o mesmo, indefinidamente...[1]”). Em virtude da identidade dramática dos dinamismos, uma percepção é como uma partícula: uma percepção actual rodeia-se de uma nebulosidade de imagens virtuais que se distribuem por circuitos móveis, cada vez mais afastados, cada vez mais amplos, que se fazem e se desfazem. São recordações de diferentes ordens: são chamadas imagens virtuais na medida em que a sua velocidade ou a sua brevidade as mantém aqui sob um princípio de inconsciência. 
 
As imagens virtuais são tão pouco separáveis do objecto actual como este daquelas. As imagens virtuais reagem assim sobre o actual. Deste ponto de vista elas medem, no conjunto dos círculos ou em cada círculo, um continuum, um spatium determinado em cada caso por um máximo de tempo pensável. A estes círculos mais ou menos extensos de imagens virtuais, correspondem camadas mais ou menos profundas do objecto actual. Estas formam a impulsão total do objecto: elas mesmas camadas virtuais, e nas quais o objecto actual devém, por sua vez, virtual[2]. Objecto e imagem são aqui ambos virtuais, e constituem o plano de imanência onde se dissolve o objecto actual. Mas o actual passou então por um processo de actualização que afecta a imagem assim como o objecto. O continuum de imagens virtuais é fragmentado, o spatium é segmentado segundo decomposições regulares ou irregulares do tempo. E a impulsão total do objecto virtual estilhaça-se em forças correspondendo ao continuum parcial, em velocidades que percorrem o spatium segmentado[3]. O virtual nunca é independente das singularidades que o segmentam e dividem no plano de imanência. Como o mostrou Leibniz, a força é um virtual em curso de actualização, assim como o espaço no qual ela se desloca. O plano divide-se, portanto, numa multiplicidade de planos, seguindo os cortes do continuum e as divisões da impulsão que marcam uma actualização de virtuais. Mas todos os planos não fazem senão um, seguindo a via que conduz ao virtual. O plano de imanência compreende simultaneamente o virtual e a sua actualização, sem que possa haver um limite determinado entre os dois. O actual é o complemento ou o produto, o objecto da actualização, sendo que esta tem por sujeito somente o virtual. A actualização pertence ao virtual. A actualização do virtual é a singularidade, enquanto que o próprio actual é a individualidade constituída. O actual cai fora do plano como um fruto, enquanto que a actualização o reporta ao plano como àquilo que reconverte o objecto em sujeito.
 

 [1] Michel Cassé, Du vide et de la création, Odile Jacob, pp. 72-73. E o estudo de Pierre Lévy, Qu'est-ce que le virtuel?, Éditions de la Découverte.

 [2] Bergson, Matière et mémoire, Édition du Centenaire/PUF, p. 250 (os capítulos II e III analisam a virtualidade da recordação e a sua actualização).

 [3] Gilles Châtelet, Les Enjeux du mobile, Éditions du Seuil, pp. 54-68 (das “velocidades virtuais” aos “cortes virtuais”).

escrito por José Carlos Cardoso às 19:31

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