"[...]mas faz-nos esboçar uma realidade supra-sensível compatível com o uso experimental da nossa razão. Sem uma tal precaução, não saberíamos fazer o mínimo uso de semelhante conceito e deliraríamos ao invés de pensarmos.[...]"

19
Jul 09
Portanto, visamos provar que o fundamento da determinação completa e geral de uma forma corporal não repousa exclusivamente na relação e na situação das suas partes, umas em relação às outras, mas, além disso, numa relação que mantém com o espaço absoluto e geral, tal como os geómetras o representam, e embora esta relação não possa ser percebida imediatamente, podem ser aquelas diferenças entre corpos que dependem única e exclusivamente deste fundamento. Quando duas figuras, traçadas numa superfície plana, são iguais e similares, sobrepõem-se. Já o mesmo não acontece com a extensão corporal ou mesmo com linhas e planos que não se encontram numa superfície plana. Podem ser completamente iguais e similares e, contudo, ser em si mesmas tão diferentes que os limites de uma não podem ser, simultaneamente, os limites da outra. Uma porca cuja rosca se direcione da direita para a esquerda nunca entrará num parafuso cujo fio da rosca esteja orientado da esquerda para a direita, não obstante a sua espessura, altura e número de voltas iguais. Um triângulo esférico pode ser completamente igual e similar a outro, sem, no entanto, o recobrir. Temos, ainda, o exemplo mais comum e claro nos membros do corpo humano, que são ordenados simetricamente no plano vertical do mesmo. A mão direita é igual e similar à esquerda, e se olharmos apenas para uma delas isoladamente, para a proporção e situação recíproca das partes e para a grandeza do todo, uma descrição completa de uma também é inteiramente válida para a outra.
 
[382] Designo um corpo completamente igual e similar a outro, e que, mesmo assim, não pode ser incluído nos mesmos limites, como a sua réplica incongruente. Para demonstrar a sua possibilidade suponha-se um corpo que não é constituído por duas partes ordenadas simetricamente, em relação a um plano de intersecção único, digamos, uma mão humana. Faça-se partir de todos os pontos da sua superfície linhas perpendiculares a um quadro que se dispôs à sua frente, e prolongue-se estas linhas por detrás do quadro, até uma distância idêntica à que o separa dos pontos situados à sua frente; os pontos terminais das linhas, assim prolongadas, constituem, depois de unidos, uma figura corporal que é a réplica incongruente da figura anterior, quer dizer: se a mão dada é uma mão direita, a sua réplica é uma mão esquerda. O reflexo de um objecto no espelho assenta nos mesmos fundamentos. Pois o objecto aparece sempre atrás do espelho na mesma distância em que se encontra diante dele, e, por isso, a imagem de uma mão direita nele será sempre a de uma esquerda. Se o próprio objecto é composto de duas metades de réplicas incongruentes, como o corpo humano, quando este se divide por um corte vertical da frente para trás, então aí a sua imagem é-lhe congruente, o que facilmente se percebe quando o pensamos a dar meia volta; dado que a réplica da réplica de um objecto lhe será, necessariamente, congruente.
 
Isto deve ser suficiente para apreender a possibilidade de espaços completamente iguais e similares e mesmo assim incongruentes. Passemos agora à utilização filosófica destes conceitos. Já é evidente nos exemplos comuns das duas mãos que a figura de um corpo pode ser completamente similar à figura de outro, sendo também a grandeza da sua extensão totalmente igual, de tal modo que reste ainda uma diferença interna, a saber, que a superfície que inclui um não possa encerrar o outro. Visto que essa superfície, que limita o espaço corporal de um, não serve de limite para o outro, mesmo rodando-a e virando-a como quisermos, então essa diferenciação tem de se basear num fundamento interno. Porém, este fundamento interno da diferenciação não pode depender de modo distinto das ligações das partes do corpo umas com as outras; pois, como se viu pelo exemplo dado, a este respeito tudo pode ser completamente idêntico. Não obstante, se imaginarmos o primeiro elemento de criação como sendo uma mão humana[383], direita ou esquerda forçosamente, sendo que para a sua produção seria necessário um acto diferente da causa criadora do que aquele pelo qual a sua réplica pode ser criada.
 
Ora, se aceitarmos a concepção de muitos filósofos recentes, nomeadamente alemães, segundo a qual o espaço consistiria apenas nas relações externas das partes da matéria situadas umas ao lado das outras, então nesse caso todo o espaço efectivo seria apenas aquele que esta mão ocupa. Visto que, contudo, não há nenhuma diferença na relação das partes entre si da mesma, quer ela seja direita ou esquerda, então essa mão seria, no que se refere a essa qualidade, completamente indeterminada, isto é, ela serviria em ambos os lados do corpo humano, o que é impossível.
 
De tudo isto, ressalta claramente que as determinações do espaço não são consequência das situações das partes da matéria, umas em relação às outras, mas que estas são consequência daquelas; que, na estrutura dos corpos se podem encontrar diferenças e mesmo verdadeiras diferenças que dizem respeito ao espaço absoluto e originário, pois só ele torna possível a relação das coisas corporais. E, já que o espaço absoluto não é o objecto de uma sensação exterior, mas um conceito fundamental que, antes de mais, é dela condição de possibilidade, só podemos perceber o que, na forma de um corpo, diz respeito unicamente à sua relação com o espaço puro por oposição simétrica aos outros corpos.
 
Assim, um leitor perspicaz considerará o conceito de espaço tal como o pensa o geómetra, e também como foi adoptado nas ciências da Natureza por alguns filósofos sagazes, e não como uma simples quimera, se quiser apreender a sua realidade, que é suficientemente intuída pelo sentido interno, por via das idéias da Razão, ainda que continuem a abundar dificuldades atritas a este conceito. De qualquer maneira, sente-se este incómodo sempre que se quiser filosofar sobre os primeiros dados do nosso conhecimento, não sendo este nunca tão desagradável quanto aquele que emerge quando a experiência mais evidente contradiz as consequências de um conceito adoptado.
 
Kant, I. “Von dem ersten Grunde des Unterschiedes der Gegenden im Raume” (1768), Ak. II, pp. 375-383.
escrito por José Carlos Cardoso às 23:28

Julho 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
14
16
17
18

21
22
23
24
25

26
28
30
31


eu, imagem
seguir os sinais
 
blogs SAPO