"[...]mas faz-nos esboçar uma realidade supra-sensível compatível com o uso experimental da nossa razão. Sem uma tal precaução, não saberíamos fazer o mínimo uso de semelhante conceito e deliraríamos ao invés de pensarmos.[...]"

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Set 08

 Christine Buci-Glucksmann, uma das filósofas mais inventivas e sofisticadas da área da Estética na actualidade, abre e fecha o Encontro Internacional Efémero. Criação. Acontecimento, a realizar-se amanhã e quarta (16 e 17) no Instituto Franco-Português.

A conferência de abertura, L'Ésthétique de l'Éphémère, terá como mote a problematização de como "a mundialização e o desenvolvimento das novas tecnologias conduziram à passagem de uma cultura de estabilidades a uma cultura de fluxos, modificando a consciência e a forma do tempo. O fim do modelo linear do progresso, assim como o do modernismo na arte geraram uma pluralização dos tempos (cf. Benjamin) e o desdobramento do devir: ao mesmo tempo maquínico ultra-rápido e em directo, e cada vez mais efémero, na vida como na arte.", e seguirá o seguinte esquema de exposição:

"Analisar-se-á o conceito filosófico de efémero nos seus diferentes momentos (grego, barroco e contemporâneo) para resgatar uma estética do efémero. Para esse fim, esclarecer-se-á os seguintes pontos:

1) Em que é que o efémero pressupõe o fim de toda uma concepção ontológica da arte, ao restituir toda a sua actualidade ao binómio processo/maneira e ao acontecimento?

2) Distinguir-se-á um efémero melancólico nas suas estéticas e na sua história (as Vanitas, Hamlet, o spleen de Baudelaire, o desassossego de Pessoa, e o fim da aura de Benjamin) de um outro efémero pós-melancólico, ligeiro, positivo e nietzschiano, verdadeira ponte teórica entre o Oriente japonês e o Ocidente.

3) Analisar-se-á certas modalidades deste efémero na arte e muito em particular um novo regime da imagem, que analisei como imagem-fluxo, e que afecta tanto a arte como a arquitectura. Para assim construir uma estética poli-sensorial concebida como estilística."

A conferência de encerramento, De l'Éphémère à l'Ornement, parte de "duas concepções de mundialização: uma liberal económica que tende à homogeneização das culturas a partir do mercado, e finaliza em lógicas guerreiras. A outra insiste no papel central da cultura numa “mundialidade” que implica um pensamento pós-colonial e intercultural de todas as hibridações."

A partir destas premissas, "tomar-se-á a questão do ornamento como sintoma de um triplo retrocesso do moderno: as mulheres, os primitivos e o Oriente. Esta história, que começa com a exclusão platónica da aparência, realiza-se no virar do século no célebre debate vienense: é o ornamento um crime (Loos) ou um estilo (Klimt, Riegl).

Esta problemática servir-nos-á de fio condutor para considerar os seguintes pontos:

1) Verdadeira ponte entre as culturas, entre Oriente e Ocidente, proceder-se-á à actualização de certos cruzamentos ornamentais (mundo islâmico e japonês) e os seus efeitos (cf. Matisse  “toda a arte é decorativa”, ou Paul Klee).

2) Efectuar-se-á uma nova leitura do moderno e do « pós-moderno », na arte (pintura, instalações...), e também na arquitectura (Greg Lynn, Ito, Zahid ou Gehry).

3) A partir da primazia dos artefactos e das hibridações, o ornamento é hoje uma modalidade de criação que afecta todas as práticas, a ponto de o virtual criar real, e permitiu reabilitar e explorar as formas curvas, em espiral e universais (desde o neolítico que se encontra espirais) caras ao maneirismo e ao barroco, a ponto de podermos falar de um neo-barroco tecnológico. Voltarei a tomar então certas hipóteses do meu último livro La philosophie de l'Ornement, nas suas implicações contemporâneas."

Assim, trata-se de um acontecimento maior, podendo o ouvinte acompanhar a autora, que, de viva voz, fará a passagem das teses de dois dos seus últimos livros, que estruturam e sustentam a base conceptual na qual trabalha neste momento. A não perder, claro está. 

escrito por José Carlos Cardoso às 22:37

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